:: Doutrina de Deus

O caráter de Deus: os atributos "incomunicáveis"  

  • Como sabemos que Deus existe?
  • Podemos realmente conhecer Deus?
  • Em que sentido Deus é diferente de nós?  

I. Explicação e base bíblica  

  • Dentro do estudo de Deus, pode-se examinar vários aspectos do caráter de Deus, tradicionalmente conhecidos como seus "atributos". Contudo faz-se necessário começarmos pela Sua existência. A introdução a algumas das evidências da existência de Deus nos proporcionará o fundamento útil para o estudo de Seu caráter, e, além disso, se Deus existe, é realmente possível que nós O conheçamos?

 A existência de Deus  

  • Todas as pessoas, em todos os lugares possuem o profundo senso interior de que Deus existe, de que elas são criaturas e de que Ele é o Criador delas. Paulo diz que até os gentios conheceram a Deus, mas "não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças" (Rm. 1.21) e que "trocaram a verdade de Deus pela mentira" (Rm. 1.25).
  • Paulo sugere que eles trocaram de forma ativa e intencional alguma verdade que conheceram a respeito da existência e do caráter de Deus "o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles... porque Deus lhes manifestou" (Rm 1.19).
  • A Escritura reconhece que alguns negam este senso interior de Deus e negam até que Deus existe, e chama a estes de "tolos" (Sl 14.1; 53.1).
  • Sl 10.3-4 indica que o pecado conduz as pessoas a pensar irracionalmente e a fazê-las negar a existência de Deus e que somente quem pensa irracionalmente e está enganado poderá dizer: "Deus não existe".
  • Além da consciência interior de Deus que as pessoas possuem, a clara evidência de sua existência pode ser vista na Escritura e na natureza. De fato, a Bíblia toda parte do princípio de que Deus existe, em Gn 1.1, não apresenta evidência de que Deus existe, mas nos mostra o que ele faz! Se estivermos convencidos de que a Bíblia é verdadeira, então sabemos não somente que Deus existe, mas também conhecemos muito sobre sua natureza e seus atos.
  • O mundo também apresenta evidência abundante da existência de Deus (Rm 1.20). Cada elemento da criação, em algum sentido, evidencia o caráter de Deus. O homem em si mesmo, criado à imagem de Deus, testifica a existência de Deus.  (At 14.17; Sl 19.1-2) Toda a natureza manifesta a existência e o poderio do Senhor.
  • Quando cremos que Deus existe, baseamos nossa crença não em alguma esperança cega independente de qualquer evidência, mas na esmagadora e confiável evidência retirada das palavras de Deus e de suas obras.
  • A rejeição da evidência manifestada da existência de Deus não significa que ela seja inválida em si mesma, mas somente que quem a rejeita a avalia de modo errôneo.  

A cognoscibilidade de Deus  

  • Mesmo se cremos que Deus existe isso não nos diz se é realmente possível conhecê-lo, nem nos diz o quanto de Deus pode ser conhecido.
  • Porque Deus é infinito e nós somos finitos e limitados, nunca podemos entender Deus plenamente. (Sl 145.3; 147.5; 139.6) Ele é grande demais para ser plenamente conhecido e nunca seremos capazes de alcançar plenamente o entendimento de Deus.
  • 1 Co 2.10,11; Rm 11.33 nos mostram que não somente é verdadeiro que jamais podemos entender Deus plenamente, mas é também verdadeiro que nunca podemos entender plenamente qualquer simples coisa a respeito de Deus. (Sl 145.3; 147.5; 139.6; Rm 11.33)
  • Podemos conhecer alguma coisa a respeito de como o amor de Deus se relaciona com cada atributo e com cada coisa individual no universo, mas não poderemos nunca conhecer os atributos de Deus de modo completo.
  • Já que nunca seremos capazes de conhecer "demais" a respeito de Deus, jamais nos cansaremos de ter prazer na descoberta infindável de sua excelência e da grandeza de suas obras!
  • Embora não possamos conhecê-lo completamente, podemos conhecê-lo verdadeiramente! De fato tudo o que a Escritura nos diz a respeito de Deus é verdadeiro. (1 Jo 1.5; 4.8; Rm 3.26, Jo 4.24) Ele é luz, é amor, é espírito, é justo. Dizer isso não requer que saibamos tudo a Seu respeito.
  • Mais significativo é o fato de que conhecemos o próprio Deus! Não simplesmente fatos a seu respeito, dizer que eu O conheço significa que eu já O encontrei e falei com Ele, e que ainda, desenvolvi algum grau de relacionamento pessoal com Ele.
  • Jr 9.23-24, Jo 17.3, Hb 8.11: a riqueza da vida cristã inclui o fato de que temos um relacionamento pessoal com Deus, temos o privilégio muito maior que o de simplesmente conhecer os fatos a Seu respeito, mas falamos com Deus em oração, estamos em Sua presença e Ele habita em nós e entre nós para nos abençoar (Jo 14.23)!  Este relacionamento pode ser considerado a maior de todas as bênçãos desta vida cristã.  

Os atributos de Deus  

  • Quando falamos sobre o caráter de Deus, percebemos que não podemos dizer tudo aquilo que a Bíblia nos ensina a esse respeito de uma só vez, faz-se necessário categorizar os atributos de Deus para melhor aproveitamento didático. Diversos métodos têm sido usados e há sempre a possibilidade de adotarmos uma ordem que enfatiza mais alguns atributos em detrimento de outros.
  • Os atributos incomunicáveis de Deus são aqueles que Ele não compartilha ou "comunica" a outros e os atributos comunicáveis são aqueles que Ele compartilha conosco, como o amor, Deus é amor e nós somos capazes de amar.
  • Contudo, essa distinção, embora útil, não é perfeita, pois não há nenhum atributo de Deus que seja completamente comunicável, e não há nenhum atributo de Deus que seja completamente incomunicável, isso ficará evidente se pensarmos na sabedoria de Deus, nós também podemos ser sábios, mas nunca seremos infinitamente sábios como Ele é sábio. Sua sabedoria é em algum grau compartilhada por nós, mas nunca plenamente. Ou seja, os atributos "comunicáveis" de Deus são os mais partilhados conosco.  

Independência   

  • A independência de Deus é definida do seguinte modo: Deus não precisa de nós ou do restante da criação para nada, todavia nós e o restante da criação o glorificamos e lhe trazemos alegria.
  • Em diversos lugares a Escritura nos ensina que Deus não precisa de parte alguma da criação a fim de existir ou para outra razão qualquer. Deus é absolutamente independente e auto-suficiente. (At 17.24,25) Deus não precisa de nada da raça humana (Jó 41.11; Sl 50.10-12).
  • As pessoas pensam às vezes que Deus criou os seres humanos porque estava solitário e carente da companhia de outras pessoas. Se isso fosse verdade, certamente significaria que Deus não é completamente independente de sua criação, mas significaria que Deus precisou criar pessoas a fim de ser completamente feliz e realizado em sua existência pessoal.
  • Jo 17.5, 24 indica que houve o compartilhamento de glória entre o Pai e o Filho antes da criação e que houve amor e comunicação entre o Pai e o Filho antes da fundação do mundo, e nessa comunhão não houve carência ou falta que tornasse a criação da raça humana uma necessidade.
  • Somente Deus existe em virtude da própria natureza, Ele nunca foi criado e nunca veio à existência. Ele sempre existiu (Ap 4.11, Jo 1.3, Rm11. 35-36, 1 Co 8.6, Sl 90.2) Assim, Deus não é dependente de qualquer parte da criação para sua existência ou para sua natureza.
  • Deus não precisa da criação para nada, mas também não pode necessitar da criação para nada.  A diferença entre Criador e criatura é imensa, não significa apenas que nós existimos e que Deus sempre existiu, mas que Ele existe de modo infinitamente melhor, mais forte e mais excelente.  É como a diferença entre o sol e a vela, o oceano e a gota d'água, mais que o universo e este lugar onde estamos: o ser de Deus é qualitativamente melhor, nenhuma limitação ou imperfeição na criação deveria ser projetada em nossa concepção de Deus. Tudo pode desaparecer em instantes... Ele existe necessariamente para sempre!
  • No entanto, nós e o restante da criação o glorificamos e lhe trazemos alegria, isso deve ser lembrado para que a nossa existência não se torne sem significado. Nós temos muita importância, porque Deus nos criou e determinou que teríamos muito significado para Ele (Is 43.7) Embora Deus não precisasse nos criar, Ele escolheu criar-nos na total expressão de sua livre escolha, para que O glorificássemos (Ef 1.11,12; Ap 4.11).
  • Somos capazes de trazer verdadeira alegria e prazer a Deus (Sf 3.17; Is 62.3-5), Deus não precisa de nós para nada, mas é um fato impressionante de nossa existência que Ele escolhe ter prazer em nós e nos permite trazer alegria para o seu coração.  

Imutabilidade   

  • Deus é imutável em seu ser, perfeições, propósitos e promessas, todavia Deus age e sente emoções, e Ele age e sente emoções de modo diferente em resposta às diferentes situações.
  • Deus não pode mudar para melhor uma vez que Ele é perfeitamente santo. Ele nunca foi menos santo do que é agora e jamais poderá ser mais santo do que é ou foi. (Ml 3.6; Sl 102.25-27) Deus causa mudança no universo, mas, em contraste, Ele é o mesmo, Ele não mudou o seu ser ou o seu caráter.
  • Deus também é imutável em seus propósitos, uma vez que Ele tenha determinado que certamente haverá de realizar seu plano, Ele o realizará (Sl 33.11; Mt 13.35; Ef 1.4,11; 3.9,11; 2 Tm 2.19).
  • Deus é imutável em suas promessas. Desde que tenha prometido algo, certamente Ele não será infiel. (Nm 23.19; 1 Sm15.29).
  • Deus muda de opinião? Podemos recordar ocasiões na Escritura nas quais, Deus disse que julgaria seu povo e, então por causa da oração ou arrependimento, Deus arrependeu-se e não trouxe juízo como havia dito. (Moisés e a "destruição" do povo - Ex 32.9-14. Acréscimo de 15 anos à vida de Ezequias - Is. 38.1-6. Nínive - Jn 3. 4,10).
  • Tais exemplos devem ser entendidos como a intenção de Deus com respeito à situação como ela existe e se manifesta naquele momento. Se a situação muda, então, naturalmente a atitude ou expressão da intenção de Deus muda. Isto é dizer que Deus responde diferentemente a diferentes situações. O propósito de proclamar a advertência é produzir o arrependimento! (vide apêndice).
  • Porque é importante que Deus não mude? Se Deus é mutável, então a base total de nossa fé começa a ruir, isso porque toda a nossa fé, esperança e conhecimento são dependentes de uma pessoa que é infinitamente digna de confiança - porque Ele é absolutamente imutável!

 

"Todas as coisas em transformação proclamam

Que o Senhor permanece eternamente o mesmo"      

                                                                                                                (Charles Wesley)

Eternidade  

  • Deus não tem começo, fim ou sucessão de momentos em seu próprio ser, e ele vê todo o tempo de modo vividamente igual, todavia Deus vê os eventos no tempo e os atos no tempo.
  • Pode-se dizer que Deus nunca começou a existir de fato (Sl 90.2; Jó 36.26; Ap. 1.8; 4.8) quando Deus criou o universo Ele também criou o tempo, e antes disso Ele já estava lá, sem começo e sem ser influenciado pelo tempo. (Jd 25 - "antes de todos os tempos, agora e para todo o sempre").
  • O ser de Deus não possui uma sucessão de momentos ou qualquer progresso de um estado de existência para outro. Para o próprio ser de Deus tudo está sempre no "presente".
  • Deus vê o tempo de modo igualmente vívido. Sl 90.4 e 2 Pe 3.8, de um lado Deus vê mil anos como o "dia de ontem", Ele pode lembrar todos os eventos detalhados ao menos tão claramente como nós podemos lembrar dos nossos eventos de "ontem".
  • E "um dia é como mil anos" significa que qualquer dia visto da perspectiva divina parece durar "mil anos", esta é uma expressão figurada de "um tempo mais longo que alguém possa imaginar" ou "a totalidade da história".
  • Assim, a totalidade do espaço da história é tão vívido como se fosse um evento breve que acabou de acontecer, mas qualquer breve evento é como se durasse para sempre.
  • Deus conhece os eventos no futuro, mesmo o futuro que é infinitamente longo e eterno (Is 46.9,10).
  • Nunca devemos pensar que Deus vê todos os eventos como acontecendo simultaneamente, ou que Ele não saiba a diferença entre os eventos acontecidos em 2000 a.C, 1000 a.C, 30 d.C ou entre esta manhã e esta tarde.  

Onipresença  

  • Deus não tem tamanho ou dimensão espacial, e está presente em cada ponto do espaço com a plenitude do seu ser, todavia, Deus age diferentemente em lugares diferentes.
  • Deus está presente em todo lugar (Sl 139.7-10; Jr23. 23,24) Não há nenhum lugar no universo, na terra ou no mar, no céu ou no inferno, onde alguém possa fugir da presença de Deus.
  • Não há indicação alguma de que parte de Deus está em um lugar e outra parte em outro lugar, é o próprio Deus que está presente. Ele não é limitado pelo espaço, assim é a totalidade de seu ser que está presente em cada parte do espaço.
  • Não devemos pensar que Deus é de certo modo "um espaço maior" ou uma área maior que circunda o espaço do universo. Deus existe sem tamanho ou dimensão no espaço. (1 Rs 8.27; Is 66.1,2; At 7.48).
  • Também não devemos pensar que Deus seja equivalente a qualquer parte da criação ou que seja o todo dela. O panteísta crê que tudo é Deus, ou que Deus é tudo o que existe. Mas sim, que Deus está presente em todo lugar de sua criação e é distinto dela.
  • Deus pode estar presente para punir, suster ou abençoar. Como Deus pode estar presente no inferno se de fato, o inferno é o oposto da presença de Deus ou a ausência de Deus? (Am 9.1-4). É quando Deus está presente para punir.
  • Outras vezes Deus está presente para suster ou manter o universo existindo e funcionando do modo que Ele pretendeu que funcionasse (Cl 1.17; Hb 1.3).
  • Deus também está presente para abençoar (Sl 16.11; 1Sm 4.4; Ex 25.22).
  • Deus também se faz "longe", pois não está presente para abençoar (Is 59.2; Pv 15.29) o que não quer dizer que não esteja presente naquele lugar, mas que não está ali para abençoar as pessoas e dar evidência de sua presença.  

"Quando você deseja fazer alguma coisa má, você se retira do lugar público para sua casa, onde nenhum inimigo possa vê-lo; você se afasta dos lugares de sua casa que são abertos e visíveis aos olhos dos homens para se esconder no seu quarto; mesmo em seu quarto você teme algumas testemunhas de outros lugares; você se retira para o seu coração, onde você medita: ele é mais interior que o seu coração. Para onde quer que você fuja, lá está ele. De você mesmo, para onde você fugirá? Você não irá atrás de si próprio? Mas, já que há Um Ser mais interior que você mesmo, não há nenhum lugar que você possa fugir do Deus irado a não ser para o Deus reconciliado. Não há nenhum lugar para onde possa  fugir. Você fugirá dele? Fuja para ele.                                                                                                                                                                                     (Herman Bavinck)

 Unidade   

  • Deus não é dividido em partes, todavia vemos diferentes atributos de Deus enfatizados em tempos diferentes.
  • A Escritura nunca considera um atributo de Deus mais importante que os restantes. Há uma suposição de que cada atributo é completamente verdadeiro em relação a Deus e que é verdadeiro a respeito do caráter total de Deus.
  • Deus é luz (1 Jo 1.5), Deus é amor (1 Jo 4.8), não há indicação alguma que parte de Deus é luz e outra parte de Deus é amor, ou que Deus é mais luz do que amor. O ser total de Deus inclui todos os seus atributos: Ele é totalmente luz e totalmente amor.
  • Deus não é o Deus de amor em algum ponto da história e o Deus justo ou irado em outro momento. Ele é o mesmo Deus sempre, e cada coisa que Ele diz ou faz é plenamente coerente com todos os seus atributos.
  • Por sermos incapazes de captar todo o caráter de Deus, aprendemos dele suas diferentes perspectivas durante um período de tempo, porém, estas perspectivas não se opõem uma à outra, pois são modos diferentes de olhar para a totalidade do caráter de Deus.
  • Certas ações de Deus revelam alguns de seus atributos. A criação demonstra seu poder e sabedoria, o juízo de Sodoma e Gomorra demonstra sua santidade e justiça em ira, a expiação mostra seu amor e justiça, mas todos esses eventos mostram de um modo ou de outro o seu conhecimento, santidade, misericórdia, verdade, paciência e soberania.  

II. Questionário para revisão  

  1. Além da Bíblia, que evidência temos de que Deus existe?
  2. Diferencie os atributos incomunicáveis e os atributos comunicáveis de Deus.
  3. Diante da imutabilidade de Deus, o que a Bíblia que dizer quando fala de Deus mudando de idéia?
  4. O tempo tem algum efeito sobre Deus? Explique.
  5. Se Deus está presente em todo lugar, como Ele pode estar presente no inferno, se este é um lugar de sofrimento e dor?
  6. Há algum atributo de Deus que é mais verdadeiro, ou descreve melhor a Deus, do que outros? Explique.  

III. Passagem bíblica para memorizar  

Sl 102. 25-27  

Os atributos comunicáveis de Deus  

  • Em que sentido Deus é igual a nós?

I. Explicação e base bíblica  

  • Os atributos comunicáveis de Deus devem ser imitados em nossa vida (Ef 5.1)
  • Tais atributos, que são mais compartilhados conosco, não abrange tudo o que é dito na Bíblia a respeito do caráter de Deus. Em razão da excelência de Deus ser tão rica e plena, outros atributos poderiam ser listados.   

A. Atributos que descrevem o ser de Deus  

Espiritualidade  

  • Deus existe como um ser que não é feito de matéria alguma, que não possui partes ou dimensões, que é incapaz de ser percebido pelos nossos sentidos físicos, e é mais excelente que qualquer outra espécie de existência.
  • Deus é espírito (Jo 4.24) e significa que Ele não está limitado a um local relacionado ao espaço, assim, a verdadeira adoração diz respeito não ao lugar físico, mas à condição espiritual interior do adorador.
  • Ele não possui um corpo físico, nem é feito de qualquer espécie de matéria que tenha semelhança com o restante da criação. Ele não é meramente uma energia ou pensamento. Mas sim uma espécie de existência muito superior a tudo que está relacionado à existência material.
  • Ele nos deu um espírito por meio do qual O adoramos (Jo 4.24; 1 Co 14.14; Fp 3.3) e estamos unidos ao Espírito do Senhor (1 Co 6.17). Assim, há claramente alguma comunicação de Deus para nós de natureza espiritual que é algo que pertence à nossa natureza, embora certamente não em todos os aspectos.   

Invisibilidade   

  • A essência total de Deus, tudo de seu ser espiritual, nunca será visível para nós, todavia Deus ainda se mostra a nós por meio das coisas visíveis criadas. (Jo 1.18; Jo 6 46; 1 Tm 6.16).
  • Tais passagens foram escritas após muitos eventos nos quais pessoas viram algum tipo de manifestação externa de Deus (Ex 33.11 - "O Senhor falava com Moisés face a face"; todavia "você não poderá ver a minha face, porque ninguém poderá ver-me e continuar vivo" Ex 33.20).
  • Teofania é uma "aparição de Deus", onde Deus assume várias formas visíveis para mostrar-se ao povo (Abraão - Gn 18.1-33; Jacó - Gn 32. 28-30; ao povo de Israel como coluna de fogo e de nuvem - Ex 24.9-11; a Isaías - Is 6.1; a Manoá e sua esposa - Jz 13.21,22).
  • A manifestação visível muito maior de Deus que estas teofanias do AT foi encontrada na pessoa de Cristo: "Quem me vê, vê o Pai" (Jo 14.9).
  • É correto dizer que, embora a essência total de Deus nunca possa ser vista por nós, no entanto Deus ainda nos mostra alguma coisa de si mesmo por meio das coisas criadas, visíveis e especialmente na pessoa de Cristo. (Hb 1.5; Cl 1.15)
  • E no céu, como veremos a Deus? Nunca seremos capazes de ver ou de conhecer tudo de Deus (Jó 36.26; Jo 6.46; 1 Tm 1.17; 6.16; 1 Jo 4.12), contudo, nós veremos a Deus! (Mt 5.8; 1 Co 13.12; 1 Jo 3. 2; Ap 22. 3, 4).
  • Quando percebemos que Deus é a perfeição de tudo que desejamos, que Ele é a soma de tudo o que é belo e desejável, então percebemos que a maior alegria da vida por vir será que "nós veremos sua face" (1 Jo 3.2; 1Co 3.18).  

B. Atributos mentais  

Conhecimento (onisciência)  

  • Deus conhece plenamente a si mesmo e a todas as coisas reais e possíveis em um ato simples e eterno. (Jó 37.16; 1 Jo 3.20)
  • Deus conhece a si mesmo, mesmo sendo ilimitado e infinito (1 Co 2.10,11). O seu conhecimento abrange tudo o que existe, tudo o que acontece e que pode acontecer, (Hb 4.13; 2 Cr 16.9; Jó 28.24; Mt 10.29,30), incluindo os eventos que podem acontecer, mas que realmente não acontecem (Mt 11.21 - Tiro e Sidom; 1 Sm 23. 11-13; 2 Rs 13.19).
  • Se Ele desejasse saber o numero de grãos de areia da praia ou das estrelas do céu, não teria de contá-los rapidamente, como num computador gigante, nem teria que calcular na sua mente, ele simplesmente conhece todas as coisas em um só ato, de uma vez. Ele não tem de raciocinar ou ponderar para chegar a conclusões, pois Ele conhece o fim desde o começo e nunca aprende nem esquece nada (Sl 90.4).
  • O conhecimento de Deus nunca muda ou cresce, é um ato eterno, desde a eternidade, Ele tem conhecimento de todas as coisas que poderiam acontecer e de todas as coisas que faria.

Sabedoria  

  • Deus sempre escolhe os melhores alvos e os melhores meios para chegar a esses alvos. Tal definição vai além da idéia de Deus conhecer todas as coisas e especifica que as decisões de Deus a respeito do que Ele fará são sempre decisões sábias - isto é, elas sempre serão realizadas com os melhores resultados (da perspectiva de Deus!) e produzirão os resultados por meio dos melhores meios possíveis.
  • Ele é o único Deus sábio (Rm 16.27) e sua sabedoria é visível na criação (Sl 104.24). Sua sabedoria também é mostrada em nossa vida individual: "Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito (Rm 8.28). Mesmo quando nós não entendemos o que Ele está fazendo e nem qual o seu propósito (1 Pe 4.19; Dt 29.29; Pv 3.5,6).
  • Todas as coisas que acontecem em nossa vida e por meio delas Ele nos faz progredir para o alvo da nossa conformidade à imagem de Cristo (Rm 8.29). Quando não somos capazes de compreender os seus atos, devemos simplesmente confiar no Senhor (1 Pe 4.19; Pv 3.5,6).
  • Ele está disposto a compartilhar sua sabedoria conosco (Tg 1.5; Sl 19.7; Dt 4.6-8; Sl 111.10; Pv 9.10), ela vem pela leitura e obediência à sua Palavra: "A lei do Senhor é perfeita e revigora a alma. Os testemunhos do Senhor são dignos de confiança e tornam sábios os inexperientes." Sl 19.7 (Dt 4.6-8).  

C. Atributos morais  

Amor   

  • O amor de Deus significa que Deus se dá eternamente aos outros. Ou seja, o amor de dar a si próprio para o benefício de outros. (1 Jo 4.8; Jo 17.24; 14.31)
  • "Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados" (1 Jo 4.10). Paulo escreve: "Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores" (Rm 5.8) e João: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna" (Jo 3.16).
  • O amor de Deus nos revela a sua bondade. Ela está ligada à sua misericórdia e graça. A misericórdia de Deus significa a bondade de Deus para com aqueles que estão em miséria e angústia. A graça de Deus significa sua bondade para quem merece somente punição. (Ex 34.6; Sl 103.8; Rm 3.23,24).
  • Devemos amar a Deus em retribuição e amar aos outros, imitando ao Senhor. Todas as nossas obrigações para com Deus podem ser resumidas nisto: "Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu conhecimento, este é o primeiro mandamento" (Mt 22.37,38). Se amamos a Deus, obedecemos aos seus mandamentos (1 Jo 5.3) e, assim fazemos aquilo que lhe agrada (1 Jo 2.15; 1 Jo 4.19).  

Santidade  

  • A santidade divina significa que Deus é separado do pecado. (Sl 71.22; 78.41; 89.18; Is 1.4; 5.19,24; 6.3).
  • A santidade de Deus proporciona o padrão a ser imitado (Lv 19.2; 11. 44,45; 20.26; 1 Pe 1.16; Ex 19.6). Tal santidade é condição para que O vejamos (Hb 12.14).
  • Não somente os indivíduos, mas a Igreja deve buscar a santidade de Deus (Hb 12.10; Ef 5.26,27) até que venha o dia quando tudo será separado do pecado e dedicado ao culto divino em verdadeira pureza moral (Zc 14.20,21).  

Justiça (retidão)  

  • A retidão divina significa que Deus sempre age de acordo com o que é certo e Ele próprio é o padrão final do que é certo. (Dt 32.4; Gn 18.25; Is 45.19).
  • Como resultado da retidão de Deus, é necessário que Ele trate as pessoas de acordo com o que elas merecem. Assim, é necessário que Deus puna o pecado, pois este não merece recompensa.
  • Quando Cristo morreu para pagar a penalidade de nossos pecados, Ele demonstrou que Deus é verdadeiramente justo, porque puniu apropriadamente o pecado, embora tivesse perdoado o seu povo dos seus pecados. (Rm 3.25,26).
  • Justiça é obediência a uma norma reta, é a conduta reta em relação a outra pessoa, Deus não somente trata justamente seu povo (Is 8.17) como também requer justiça. Quando o homem peca, Ele o justifica (Rm 4.5), esta é a base da doutrina da justificação. O Santo santifica, O Justo justifica.  

D. Atributos de propósito  

Vontade 

  • A vontade de Deus é o atributo pelo qual Ele aprova e determina dar origem a cada ação necessária para a existência e atividade de si próprio e de toda a criação. Indica que a vontade de Deus tem relação com a decisão e a aprovação de coisas que Deus é e faz, ela diz respeito às escolhas de Deus do que fazer e do que não fazer. (Ef 1.11; Ap 4.11; Dn 4.32; Rm 13.1).
  • Vontade revelada: é a vontade de Deus declarada ao homem, a respeito do que devemos fazer ou a respeito do que Deus ordena que façamos. As coisas que Deus nos revelou são dadas para que obedeçamos a sua vontade, "para que sigamos todas as palavras desta lei" (Dt 29.29).
  • Vontade secreta: são os decretos ocultos de Deus, pelos quais Ele governa o universo e determina tudo o que vai acontecer. Confiar na vontade secreta de Deus subjuga o orgulho e expressa a dependência humilde do controle soberano de Deus sobre os eventos de nossa vida. (Tg 4.15).
  • Há perigo em falar dos eventos maus como acontecendo de acordo com a vontade de Deus, ainda que vejamos as Escrituras falando deles deste modo (Gn 50.20; Mt 11. 25,26), pois podemos pensar que Deus tem prazer no mal, que Ele não comete (Ez. 33.11) embora possa usar o mal para bons propósitos (José e Cristo). Outro perigo é que podemos começar a culpar Deus pelo pecado, antes que a nós mesmos, ou a pensar que não somos responsáveis por nossas ações más.  

Onipotência   

  • Deus é capaz de fazer toda a sua vontade. Não há quaisquer limites quanto ao poder de Deus em fazer o que Ele decide fazer. (Gn 18.14; Jr 32.17,27; Mt 19.26; Ef 3.20).
  • Há, contudo, algumas coisas que o Senhor não pode fazer. Deus não pode querer ou fazer nada que venha a negar o seu caráter. Deus não pode mentir (Tt 1.2), não pode ser tentado pelo mal (Tg 1.13) e não pode negar-se a si mesmo (2 Tm 2.13). Embora o poder de Deus seja infinito, o uso que Ele faz desse poder é qualificado por seus atributos.
  • Deus nos fez como criaturas que possuem vontade e, assim exercemos escolhas e tomamos decisões reais com respeito aos eventos de nossa vida. Naturalmente não temos poder infinito ou onipotência, mas Deus nos deu poder para produzir resultados, tanto físico como de outras espécies: mental, espiritual, de persuasão e poder em estruturas de autoridade (igreja, família, governo civil). Em todas estas áreas, o uso de poder por caminhos que agradem a Deus e estejam em harmonia com a sua vontade é algo que lhe traz glória e reflete o Seu caráter em nós.   

II. Questionário para revisão  

  1. Descreva e diferencie dois atributos que descrevem o ser de Deus.
  2. Diferencie misericórdia e graça de Deus.
  3. Há limitações ao poder de Deus? Explique.
  4. Explique o que a Escritura quer dizer quando relata que Deus se arrependeu.  

III. Passagem bíblica para memorizar

Êxodo 34.6-7  

IV. Sugestão de leitura  

  • Deus é tremendo. Tony Evans. Editora Vida.
  • Verdadeiras profecias. A. W. Tozer. Editora dos Clássicos.

 V. Apêndice

  • Deus se arrepende?

                A palavra usada com maior freqüência para indicar o arrependimento humano é shûb, que significa "voltar-se" (do pecado para Deus). Ao contrário do ser humano, que, convicto do pecado, sente remorso e tristeza, Deus está livre do pecado. Assim mesmo a Escritura nos diz que Deus se arrepende (Gn 6.6-7; Ex 32.14; Jz 2.18; 1 Sm 15.11).

                O verbo naham significa: ter pena, arrepender-se, lamentar, ser consolado, consolar. Parece que em sua origem a raiz reflete a idéia de "respirar profundamente" e, por conseguinte, a manifestação física dos sentimentos da pessoa, geralmente tristeza, compaixão ou pena. A grande maioria desses casos refere-se à compaixão de Deus, não à do homem.

                Deus abranda ou muda sua maneira de lidar com os homens de acordo com seus propósitos soberanos. Quando se emprega o termo naham em relação a Deus, não há contradição com sua imutabilidade. A partir da perspectiva humana (que é limitada, humana e finita) a única expressão que se tem é de os propósitos divinos mudarem. É assim que o Antigo Testamento afirma que Deus "se arrependeu" dos julgamentos ou do mal que Ele havia planejado executar (1 Cr 21.15; Jr 18.8; 26.3,19; Am 7.3,6 Jn 3.10).

                Certamente Jr 18.7-10 é um lembrete de que, da perspectiva divina, o cumprimento da maior parte das profecias (com exceção das profecias messiânicas) está condicionado à reação positiva por parte dos homens. Assim, o juízo, longe de ser absoluto, é condicional. Uma mudança na conduta humana provoca uma mudança no juízo divino.

                Outras ocorrências na Escritura:

·         Noham. Tristeza, arrependimento (Os 13.14).

·         Nihum. Consolo (Is 57.18), compaixão (Os 11.8).

·         Nehama. Consolo (Sl 119.50; Jó 6.10).

·         Tanhum. Consolação (Jr 16.7; Is 66.11).

 

·         Deus cria o mal?

               O verbo rã'a' designa ser mau, ser ruim, dele tem-se a origem dos substantivos:

·         ra'. Mal, aflição; mau, ruim.

·         rõa. Maldade, mal.

·         rã'â. Mal, infortúnio, aflição.

       A raiz da palavra tem conotação de "infortúnio", "calamidade", "perversidade". Pode ocorrer em contextos profanos, "ruim", "repulsivo", e em contextos morais, "mal", "impiedade".

       Rã'a' (verbo) designa experiências que causam dor física (Nm 16.15; 1 Cr 16.22; Sl 105.15) ou emocional (Gn 43.6; Nm 11.10-11; Rt 1.21; 1 Rs 17.20). No âmbito moral e religioso, o verbo denota a atividade que é contrária à vontade de Deus. (Jó 8.20; Is 31.2; Sf 1.12).

       Ra' (substantivo: mal, maldade) denota ferimentos físicos (Jr 39.12) ou épocas de aflição (Am 6.3; Is 45.7), mas na maioria das vezes denota atividade antiética ou imoral contra outras pessoas, seja por palavras (Sl 41.3; 73.8; 109.20), seja por ações (Mq 2.1; 7.3), seja ainda por oferecimento de sacrifícios inadequados (Ml 1.8). Tal substantivo aparece frequentemente em contraste com tôb "bem" e às vezes com shalom "paz" onde aparecem como opostos. Ademais o substantivo é definido como aquela condição ou ação que é inaceitável aos olhos de Deus (Jr 52.2; Ml 2.17; Ne 9.28).

       Assim, quando vemos Is. 45.7: "faço a paz e crio o mal", tal mal aparece em oposição à paz, assim ra' designa um período de ausência de paz, ou como uma época de aflição. Deus é o sujeito do verbo rã'a' em Sl 44.2; Jr 25.29; 31.28. Mq 4.6 e Zc 8.14. Mas o fato de infligir dor às pessoas não se deve à maldade; é o juízo justo para os pecadores que não se mostram sensíveis ao seu chamado ao arrependimento. No AT, Deus, ao se dizer que faz rã'a' aos perversos, não é descrito como alguém que comete um ato imoral, mas justo.

       Para o homem, que não é justo, mas pecador, a palavra ra' designa uma condição interior de perversidade (Sl 7.9; Pv 12.21) e mais frequentemente descreve atitudes intimas para com Deus ou o homem. Uma pessoa pode planeja, desejar, amar e regozijar-se no ra' (Sl 52.3; Pv 2.14; 6.14; 12.20). 

Retirado do Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. R. Laird Harris (organizador). Ed. Vida Nova.

:: Cristiano Oliveira - Jundiai.


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